253-LUTO - MEMÓRIA DO ABANDONO – Instituto Brasileiro de Terapias Holísticas
AGRESSIVIDADE HUMANA

253-LUTO – MEMÓRIA DO ABANDONO

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                               Nem sempre o “princípio do prazer” (buscar/prazer – evitar/dor)  torna agradável o caminho  da certeza na melhor escolha  – diante da encruzilhada, correr o risco de errar sozinho seria   subestimar  os próprios limites; ousar acertar e/ou errar juntos, seria uma forma de prover-se do mínimo necessário,  para sobreviver entre “desejos/defesas”.   

LUTO, MEMÓRIA DO ABANDONO
LUTO, MEMÓRIA DO ABANDONO

INTRODUÇÃO (luto, memória do abandono)

“… se o mar não tivesse coragem de na praia morrer, … se o mar não tivesse coragem de na praia morrer,      o espetáculo  das ondas não iria acontecer”.

Descobrir que o caminho  se faz na caminhada  e que nos atalhos  se encontram   verdadeiros  “oásis-olfativos/afetivos”, de  boas  fragrâncias, dependerá de  uma aposta afirmativa, pessoal, na elaboração  de atos em  atitudes, que revelem o empoderamento do bom  propósito em  compromisso existencial.

Então, pé na estrada caminheiros, vamos  caminhar e saciar a freudiana/lacaniana inquietude,  a sede do desejo  e expandir a noção do espaço em paraíso, na paridela   do  “Ego”, paciente  das exigências do  Id e da censura do  Superego. 

Bom lugar é aquele em que a vida acontece, na alegria do encontro  e na tristeza do desencontro, dialeticamente  cúmplices na dialogicidade, pela busca da superação do estado de sofrimento (sintoma). 

Das aparências sensíveis às realidades inteligíveis e simbólicas, “alguma coisa”, “alguma palavra”,  desejo, sentimento,  percepção,   se manifestam nos atalhos das paixões, da razão e da moral (consciente  e/ou inconscientemente).

Curiosamente – LUTO, MEMÓRIA DO ABANDONO

(…) o que movimenta o ser humano é aquilo que  lhe falta, seu “desejo-desequilibrante/cadente”. E, de vez em quando, soma-se ainda,  aquilo que ele pode perder,  deixar de carregar ou, lhe ser tirado  ao longo do percurso existencial. 

Psicanaliticamente,  pode-se ousar, desconstruir  invasões que se apresentam  com   a força da repressão (forma de defesa)  contra a ameaça da “ansiedade/angústia”. Transformar o recalque em palavras com significado e nome, ao desconhecido, será um  exercício desafiador.  

Abrir as cortinas,  acordar-se, desacomodar-se para se reencontrar…

Se é verdade que a ausência daquilo que ainda não se possui,  faz caminhar  – em cada amanhecer, “haverá outra ausência”,  raiando no horizonte, com  o novo dia.

 A “ausência-presente” –  daquilo que, aparentemente se nos habita em alegria e se  esvai em tristeza –  registra na categoria do   sentimento, os bens simbólicos de  “pertencimento”, os ecos afetivos compartilhados (aprendizagens,   atitudes, respostas  e  interrogações).  

 A morte ao sinalizar o limite,

(…) corre o risco de  levar a vida  de volta  à inorganicidade.

Segundo a Escritura, Tu és pó e ao pó da terra retornarás”(Gn 3,19).

“Segue o teu destino, Rega as tuas plantas, Ama as tuas rosas. O resto é a sombra De árvores alheias.”(FP)

Que tal uma imersão na “experiência subjetiva da perda”,  daquilo que se é permitido possuir  do mundo exterior,  como mínimo necessário, no tênue  limite do imprescindível.    O  sentido   ritual do luto, quase sempre, acompanhado de  sofrimento, pode se fazer   valer   quando  ressignifica  a vida de quem permanece,  após a experiência de morte, do “objeto/pessoa” perdido (a).

Não! É impossível que toda essa beleza da Natureza e da Arte, do mundo de nossas sensações e do mundo externo, realmente venha a se desfazer em nada. Seria por demais insensatos, por demais pretensioso acreditar nisso…” Freud (1969, p.345).

Pode-se falar da transitoriedade da perda,

(…) bem como de sua permanência. Duas possibilidades, muitos caminhos. Quanto à transitoriedade, ganhos e perdas podem ser considerados. Quanto à permanência, igualmente?  Quais caminhos? Investir na vida animada pela mortalidade e/ou acreditar na vida animada pela imortalidade… 

Privilegie  a escolha que ressignifique   a razão de experimentar-se homem/mulher, no tempo (corpo,   espírito e   existência).  Existe,  na  brecha do  lampejo faiscante, a oportunidade fulcral…descubra, pois,  a conexão da “libido/energia vital”, na “lâmpada  freudiana/lacaniana.  

Jogue-se do marasmo, do  intervalo da angústia aprisionante, já  que o “Ego” não é mais, nem o lugar da (sua)  escolha subjetiva  e muito menos, o  lugar da  escolha daqueles afetos mais próximos, que de modo carinhoso,  “sub-repticiamente”, escolheram sem a permissão do (seu) “Ego” (ferido).

“… se o mar não tivesse coragem de na praia morrer, o espetáculo  das ondas não iria acontecer” (Grupo OPA). Escolha um boa causa que  valha o espetáculo. A vida valerá, o que valham as causas. 

Fazendo uso das credenciais (luto, memória do abandono)

(…) da linguagem figurada, a vida representada pelo trem, segue  tempos  preciosos e bem estabelecidos, a “locomotivaeu” reboca     muitos “vagõesexperiências”, para em algumas  “estaçõestransformações” …alguns descem, outros sobem e juntos, novos passageiros  (e desconhecidos afetos) –   “colonizam  a mente/afetos” –  e prosseguem, rumo ao  próprio destino. Quanto aos “desafetos colonizantes”personae non gratae – que desçam nas próximas estações…  

Saudade às ausências prazerosas…dívidas às ausências  desprazerosas, experienciadas.

“A realidade. Sempre é mais ou menos. Do que nós queremos. Só nós somos sempre. Iguais a nós-próprios.”(FP)

Assim sendo, a  narrativa de uma viagem, “sexualmente freudiana/lacaniana”, pode  revelar o prazer/desprazer   de respirar nos “vagões”, as emoções, desolações  de cada “estação”.

A freudiana/lacaniana  jornada existencial  acontece, sempre  sendo roteirizada   pela “locomotiva”  da subjetividade que se alimenta da energia sexual, libido   vitalizante/revitalizante, a ser descarregada, na percepção que  valha,  a superação dos “olfativos lugares”, muitas vezes, mal-usados e marginalizantes, em   estações de olhares  recalcados, desenergizados. 

“Suave é viver só. Grande e nobre é sempre. Viver simplesmente. Deixa a dor nas aras Como ex-voto aos deuses.” (FP)

Nesta narrativa, de modo particular, 

(…) a intencionalidade se volta para a estação do luto, imperativo necessário, de parada e reconstrução do sofrimento. Talvez, até se possa pensar à semelhança de Freud, de Lacan, ou de repente, seguir avante, inventar  outro caminho.  Vale  a  pena “psicanalisar” para  ressignificar. 

Quem permanece, à partida de quem muito se ama, o que lhe resta senão em caminhar adiante   e se  permitir habitar pela  “ausência-presente”.  Será possível energizar, renergizar, sinergizar uma “ausência”, que poderá insistir, em continuar “presente”?

Bem, licença, por um  pequeno parênteses, quem sabe,   a contextualização da  psicanálise, possa ajudar   e venha mesmo,  iluminar  a  compreensão deste dilema existencial.  

Falar  da contribuição da psicanálise (luto, memória do abandono)

(mediação transferencial) à  abordagem  do sofrimento no  luto,  é falar desde Freud, o homem que promoveu  de modo revolucionário, uma ruptura de paradigmas, quebrando tabus,  à sua época. Sua teoria a respeito da sexualidade deixou o mundo perplexo e colocou “trilhos” para uma locomotiva, antes desgovernada (subjetividade).

Sabe-se pela história da sexualidade que Freud inovou quanto expandiu  o conceito,  para além de sua definição, desde a infância,  não  restringindo a vida sexual simplesmente nem ao  ato e nem  a atração sexual, genitalidade,  contagiantes.  

A originalidade de Freud conduzirá, na história  da sexualidade, o impulso sexual  ao seu devido lugar. A sexualidade terá um novo entendimento, desde de sua fonte orgânica.

Será através da sexualidade, de sua força motriz que as neuroses, psicoses, e perversões terão novas abordagens.  Ele descobrirá a dinâmica evolutiva da psique, desde os primórdios da vida, in “Três ensaios sobre a sexualidade (1905)”.

Segundo Freud, a teoria da sexualidade, construída e constitutiva do sujeito,  se explicará  a partir do conceito da libido (desejo/prazer). Tratar-se-á das pulsões  de autoconservação/sexual e de sua manifestação dinâmica na vida psíquica.  

Na sexualidade estará a origem de todo comportamento humano. A sexualidade humana é pulsional e obedece a uma força permanente da libido. Desta forma  a pulsão amplia o conceito da sexualidade humana  que deixa de ser refém da genitalidade, função reprodutora. 

Finalmente, Freud fará diferença em duas descobertas,  na metodologia para estudo do inconsciente e na perspectiva sexual como  abordagem dos fatos psíquicos e sociais. A personalidade estará, para sempre,  associada  à sexualidade (Complexo de Édipo).

Retornando à narrativa, tem-se aqui a possibilidade  de se experimentar o genuíno sentido do   “desorientar-se” –  o que  pode faltar ao homem  e ao mesmo tempo, vir a perder e que lhe é de grande  valor? A libido/energia sexual. 

Então, retornando ao sofrimento (luto, memória do abandono)

(…) pela perda da pessoa, objeto da  razão transferencial da intensidade  dos afetos, da energia nela depositada,  – para onde e como extravasar , ritualisticamente, tanta libido? Segundo Freud,  …“a sombra do objeto recai sobre o ego” (1917).

“ Freud (1917) afirma que  diante do exame da realidade, que comprova que o objeto não mais existe, o Eu precisa fazer a escolha de manter ou não o direcionamento a esse objeto.

  Em virtude disso, este é convencido pelas forças narcísicas a se manter vivo e, portanto, a romper o vínculo com o objeto amado. Dado o cumprimento do trabalho do luto, o Eu ficará novamente livre” (Souza).

Portanto, experimentar o luto será uma forma de renunciar à perda e recompensar ao “Ego”, confirmando e consolidando-se  diante da continuidade da  própria vida, na visão de Freud.

Com isto,  desinveste-se   da representação do “objeto/pessoa” e se torna livre para transferir essa energia a novos olhares. O “teste da realidade”, freudianamente elaborado, tem a intenção  de preservar o ego. 

“É necessário um verdadeiro trabalho psíquico de perda, […] tarefa lenta e dolorosa através da qual o eu não só renuncia ao objeto, dele se desligando pulsionalmente, como se transforma, se refaz no jogo com o objeto” (Rivera, 2012, p. 234).

Por outro lado, tem-se uma  outra vertente, outro modo de se conduzir o dilema quando a vida é desafiada  a se posicionar  diante da morte.

Lacan, na mesma cartilha de Freud, faz uma leitura diferente. Se o luto passa a ideia de um desligamento de vínculos, na compreensão lacaniana da perda,  “essa tarefa implica na sustentação e manutenção desses vínculos, mesmo no vazio do objeto” (Viola, 2008, p. 49).

Na teoria freudiana, há um desinvestimento libidinal do objeto, na teoria lacaniana acrescenta-se o papel do simbólico e do imaginário.

Àqueles que experimentam o luto como sofrimento, aprendem que a  vida pede continuidade,   intensidade  e amplidão.

Talvez, se  acrescentar à visão freudiana, 

(…) o caminho lacaniano, acreditando que o caminho  acontece na caminhada, será possível, descobrir nos atalhos, oásis – onde a vida de quem, pela força do amor, fez o eu existir –  não precisará morrer na praia,  continuará a descortinar o espetáculo da esperança (realização daquilo que deseja), ao perfumar  as paixões/Id, a razão/Ego e a moral/Superego. 

O paraíso existe  e não se limita  ao conhecimento do bem e do mal,  à  subjetividade  o compromisso de expandir exponencialmente  o espaço/tempo do “self”. “Superar os complexos inconscientes  e diferenciar entre as forças do ego e do self, ajudará na definição da própria individualidade” (Jung).

 Concluindo, a história da libido,  experienciada na subjetividade das pulsões de vida e de morte,  impacta   a formação da personalidade determinando assim, o “modus vivendi” de cada ser humano, principalmente, no contexto desta  experiência  radical de vida/morte – a “decomposição da força vital”,  mexe convicções e ressignifica a vontade de viver.

Conhecer a si mesmo e construir uma sólida   personalidade, são os primeiros passos para se compreender que o sofrimento é inerente, faz o  ser humano existir.

Em síntese (luto, memória do abandono)

(…) para atalhar o atalho, sinergize,  –  o segredo da vida é se permitir   introjetar da “energia”  daqueles  que pela força da experiência amorosa, fazem a vida  intensamente encantadora  acontecer… sejam amigos…amores…família… parceiros inseparáveis…presentes/ausentes, importam.

“No fundo, o amor é o desejo que procura unificar a dualidade”,  (Terêncio, 2011), trazendo o homem para mais perto de si mesmo.

”Se  o “ego/self”  não tiver coragem de na inquietude se descobrir, o espetáculo dos outros não irá acontecer”. 

Joao Barros

FLORIPA, AGOSTO 2023

Referências Básicas

  1. “Luto e Melancolia” (1917) – Sigmund Freud
    • Resenha: Neste ensaio clássico, Freud explora a distinção entre luto e melancolia. Ambos os estados resultam da perda de um objeto amado, mas a melancolia tem características peculiares. Freud propõe que no luto, há um desinvestimento do objeto perdido, permitindo que a energia seja deslocada para outro objeto. Em contraste, a melancolia resulta em uma identificação com o objeto, levando a uma autocriticismo severo.
  2. “O Seminário, Livro 7: A Ética da Psicanálise” (1959-1960) – Jacques Lacan
    • Resenha: Neste trabalho, Lacan explora a dimensão ética da psicanálise. Entre os temas abordados, destaca-se sua reflexão sobre o luto e a relação do sujeito com o Outro. Lacan introduz a noção de “objeto a”, o objeto de desejo que nunca é completamente alcançado, e discute como a perda é experimentada no contexto psicanalítico.
  3. “A perda da realidade na neurose e na psicose” – Sigmund Freud
    • Resenha: Freud examina a diferença fundamental entre neurose e psicose baseada em como o ego lida com a realidade. Através deste olhar, a perda, seja de um objeto ou da própria realidade, é vista sob uma lente psicanalítica que proporciona uma compreensão aprofundada dos mecanismos de defesa e da elaboração do luto.
  4. “O luto e sua relação com os estados maníaco-depressivos” – Melanie Klein
    • Resenha: Klein, influenciada por Freud mas com sua própria visão teórica, investiga os processos do luto em crianças e sua relação com os estados maníaco-depressivos. Através de sua abordagem, Klein acentua a importância do mundo interno e dos objetos internos na elaboração do luto.
  5. “Luto: A dor do luto e o trabalho do luto” – Joyce Catlett e Robert W. Firestone
    • Resenha: Este livro fornece uma visão contemporânea sobre o luto, explorando a complexidade das reações humanas à perda. Os autores discutem como as pessoas podem enfrentar e eventualmente superar o luto, ressaltando a importância de enfrentar a dor ao invés de evitá-la.

Qual é o sentido ritual do luto?

O  sentido   ritual do luto, quase sempre, acompanhado de  sofrimento, pode se fazer   valer   quando  ressignifica  a vida de quem permanece,  após a experiência de morte, do “objeto/pessoa” perdido (a).

O que movimenta o ser humano?

(…) o que movimenta o ser humano é aquilo que  lhe falta, seu “desejo-desequilibrante/cadente”. E, de vez em quando, soma-se ainda,  aquilo que ele pode perder,  deixar de carregar ou, lhe ser tirado  ao longo do percurso existencial. 

Por que importa experimentar o luto?

Portanto, experimentar o luto será uma forma de renunciar à perda e recompensar ao “Ego”, confirmando e consolidando-se  diante da continuidade da  própria vida, na visão de Freud.

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João Barros - empresário/escritor - professor com formação em filosofia/pedagogia, teologia/psicanálise (...) atualmente, diretor pedagógico na empresa SELO BE IBRATH - com foco na supervisão e qualificação dos produtos pedagógicos e cursos livres em saúde, qualidade de vida e bem-estar. Quanto às crenças e valores, vale a máxima: o caráter do profissional em saúde - isto é - dos psicanalistas/terapeutas - determina sua missão. "Mens sana in corpore sano".

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