258- O FAVO DE MEL – Instituto Brasileiro de Terapias Holísticas
AGRESSIVIDADE HUMANA

258- O FAVO DE MEL

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Quem já não se viu diante de uma fábrica de produção em série, daquelas antigas, funcionando por um sistema de roldanas, catracas, correias, engrenagens…sabores exalados em nuvens de vapor,  na produção de doces, guloseimas,  em volume espantoso a correr pelas calhas, de forma colorida e contagiante…convidando a um mergulho no líquido em  massa reluzente, fogosamente incandescente, à semelhança da escoada lávica.

O FAVO DE MEL
O FAVO DE MEL

“Porque metade de mim é o que eu penso… e a outra metade é vulcão…

 (Oswaldo Montenegro)

INTRODUÇÃO (favo de mel)

Você está a sonhar…

Quem já não se viu diante de um amigo de infância,  crianças desconhecidas, apresentadas como suas, fora  das conservadoras relações conjugais,  infantes que se manifestam resistentes e arredios à sua visita e à sua curiosidade e espanto.

QUEM JÁ NÃO SE VIU (favo de mel)

Quem já não se viu diante da penumbra, vulto escondido embaixo de cobertores a se confundir na escuridão gerando medo e angústia, na experiência da solidão da noite.

Quem já não se viu diante antigos  desafetos, com carinhos trocados e manifestos, juntos, na resolução de problemas que envolvem união de forças, na mesma direção.

Quem já não se viu diante de enormes construções, salas, ambientes vazios, ares de construção com areias pelo chão, ferramentas espalhadas e uma porta bem colocada, com apenas o detalhe de não apresentar nenhuma fechadura.

Quem já não se viu diante de banheiros entupidos a se transformarem em verdadeiros manguezais com  cheiro asqueroso  a provocar inquietude  pelo aparente lodo sem vida,   seguido de mangueiras descontroladas  a esguichar, na violência, jatos d’água à procura de crustáceos e moluscos –  “pântano da diversidade” e das expressões de vida.

Quem já não se viu diante de bebês delicados e cativantes, acomodados em berços magníficos, que ao serem colocados no colo, derretem e escoam pelas mãos.

Quem já não se viu diante de carícias dadas e recebidas, as mesmas  da infância, com frases afetivas escritas em mantas de proteção, cores vivas a brilhar e a se manifestar  em sedução luminosa, de repente, alcova.

Quem já não se viu em montanhas, acima das nuvens, em tormentas volumosas de água, em movimentos tempestivos,  a escalar montanhas em ondas assombrosas, em pororocas violentas entre águas cristalinas e barrentas a suscitar prazer e terror.

Na verdade (favo de mel)

(…) tantos detalhes, representações  simbólicas,  manifestações, pensamentos e sensações.  

Tantas contradições, fusões – sonhos realizados, sonhos em busca de sentido. Tudo  é vida a ser descoberta, expressão de desejos, emoções chamadas de fantasias. Quem não as tem?

“No fundo os sonhos nada mais são do que uma forma particular de pensamento, possibilitada pelas condições do sonho… (Freud,1900)”.

Então, será  que os sonhos (favo de mel)

(…) seriam apenas uma forma de sentir… de pensar… de experimentar?

Na verdade,  a questão levantada, vale a pena ser considerada. Ao longo da história da humanidade, o sonho faz parte de sua evolução, da cultura, da ciência e das crenças.

Para muitas pessoas, o sonhar não é motivo de especulação e muito menos interessa aprofundar seus significados.

O conhecimento que se tem, do modo popular de interpretar, é o bastante para se passar uma existência sem se dar atenção necessária  ao fenômeno, deveras, muito instigante.

No entanto, Freud se deu ao trabalho de aprofundar, pesquisar, descobrir o lugar do sonho na vida do ser humano. Diria até que com muita segurança – o sonho será o favo de mel da montanha – “da erupção freudiana”, o sonho será o caminho para se perscrutar o inconsciente.

Na visão de Freud, o sonho permite a busca pela realização do desejo inconsciente reprimido. 

Assim, na visão psicanalítica, o sonho é o espaço para realizar os desejos inconscientes reprimidos. 

Bem, até aqui, apenas uma curiosa e fantástica  consideração/contribuição de Freud, mas pode-se complementar e expandir  esta narrativa ao explorar a diversidade de interpretações  que se tem acesso quando o assunto é o sonhar, comunicar-se consigo mesmo, por meio do sono. 

Para não se perder o foco da narrativa  e não se tergiversar, o ponto central, aqui,  é falar do sonho a partir de Freud. Antes, durante e depois dele, encontraremos uma série de interpretações, de visões diferenciadas – todas em busca do melhor sentido.

Resumidamente (favo de mel)

Freud deu uma interpretação ao sonho, embasado em uma   sustentação científica. Apresentou o conceito de sentido manifesto e sentido latente,  acompanhado de sua melhor contribuição, associações livres  feitas pelo sonhador, apresentado em sua obra, “A interpretação dos sonhos, 1900”.

Nesta obra, Freud apresenta uma metodologia para melhor interpretar os sonhos.

A ideia forte que sustenta a argumentação de Freud em relação aos sonhos  será o binômio – sonho/desejo, onde, pouco a pouco,  superará a ideia fixa do “trauma da infância” encontrada no início de suas pesquisas, junto às pessoas neuróticas quando procurava justificar  suas causas.

Os sonhos serão cargas emocionais armazenadas no inconsciente a projetar imagens e sons.

Será um grande passo. O importante, Freud, ainda em seu tempo,  superará  a ideia  do trauma de infância e mais tarde, os psicanalistas  passarão a se utilizar  do sintoma/fantasia,  em suas interpretações, isto é,  o paciente se libertará do sofrimento ao chegar à fantasia inconsciente, origem dos sintomas.

Assim temos, algumas características que podem ser identificadas na busca do sentido do sonho, no discurso de Freud.

Com certeza, elas ajudam a superar a visão apequenada, dada pela perspectiva  do sentido, popularmente dominante, que sonho é apenas sonho, sem nenhum sentido significativo que venha alterar o rumo da vida daqueles que sonham – nós, “reles mortais”. 

Segundo Elsa Susemihl (favo de mel)

(…) apresento, a partir de  sua  síntese, algumas  características do sonho em Freud, com interesse em destacá-las:

“O sonho é composto de um conteúdo manifesto e um conteúdo latente – o sonho tem a função de manutenção do sono:

– pode, posteriormente, ser utilizado para a investigação da vida mental, própria ou do analisando,

–  o trabalho onírico transforma o conteúdo latente em conteúdo manifesto,

– o trabalho onírico se compõe de condensação, deslocamento, consideração à apresentabilidade e elaboração secundária,

– durante o estado do sono há um relaxamento da repressão e da censura, assim, os impulsos inconscientes profundamente recalcados, que clamam por vida e satisfação, os “filhos da noite”, se agregam aos pensamentos latentes pré-conscientes, e,

tendo essa dupla base, no amálgama de ambos que se dá no trabalho onírico, produz-se o sonho, apresentando-se com a forma de desejos realizados.”

Será que os sonhos seriam apenas uma forma de pensar, de sentir… uma forma de realizar os desejos inconscientes “reprimidos”, segundo a  orientação freudiana?

CONCLUSÃO (favo de mel)

Na verdade, muitos são os conceitos, convergências e divergências – desde  como se forma o sonho, sua utilidade prática até o conhecimento e domínio da formação do sonho –  seu lugar na vida psíquica do ser humano e na expansão da consciência.

“O sonho é uma caverna de águas e ventos. Se estiver dentro de mim, pode empurrar-me. Ao acordar, eu sou maior que ela. Ao deitar, me domina” (Carlos Nejar, 1998).

João Barros

FLORIPA, AGOSTO 2023

Referências básicas

  1. “A Interpretação dos Sonhos” de Sigmund Freud – Resenha: Nesta obra seminal, Freud estabelece o fundamento da teoria psicanalítica do sonho. Introduzindo conceitos como o sentido manifesto e o sentido latente dos sonhos, Freud argumenta que os sonhos não são meros devaneios, mas manifestações dos desejos reprimidos. Ao longo do livro, ele elabora sua metodologia de interpretação dos sonhos e enfatiza a importância das associações livres do sonhador.
  2. “O Ego e o Id” de Sigmund Freud – Resenha: Em “O Ego e o Id”, Freud aprofunda a estrutura da psique humana, apresentando os conceitos do Ego, Id e Superego. Esse entendimento é crucial para a compreensão da dinâmica dos sonhos, já que muitas das tensões e conflitos retratados neles originam-se das interações entre essas três entidades.
  3. “A Psicopatologia da Vida Cotidiana” de Sigmund Freud – Resenha: Freud explora os erros e lapsos cometidos em atividades diárias, como esquecer nomes ou palavras, relacionando-os à dinâmica inconsciente. Essa obra lança luz sobre como os processos inconscientes, muitas vezes revelados nos sonhos, também se manifestam nas trivialidades do dia a dia.
  4. “O Seminário, livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise” de Jacques Lacan – Resenha: Embora Lacan seja uma figura separada de Freud, sua abordagem sobre a psicanálise e a interpretação dos sonhos é profundamente influenciada por Freud. Neste volume, Lacan revisita e expande os conceitos freudianos, oferecendo uma nova perspectiva sobre temas como o inconsciente, a repetição e o desejo.
  5. “A Mente em Sonhos” de Darian Leader – Resenha: Darian Leader, um psicanalista renomado, explora a natureza e a função dos sonhos em nossa vida psíquica. Revisitando os conceitos freudianos e incorporando novas perspectivas da psicanálise contemporânea, Leader argumenta que os sonhos são cruciais para entender nossos desejos, medos e neuroses.

O que é o sonho, na visão de Freud?

Freud deu uma interpretação ao sonho, embasado em uma   sustentação científica. Apresentou o conceito de sentido manifesto e sentido latente,  acompanhado de sua melhor contribuição, associações livres  feitas pelo sonhador, apresentado em sua obra, “A interpretação dos sonhos, 1900”.

Qual é a argumentação de Freud?

A ideia forte que sustenta a argumentação de Freud em relação aos sonhos  será o binômio – sonho/desejo, onde, pouco a pouco,  superará a ideia fixa do “trauma da infância” encontrada no início de suas pesquisas, junto às pessoas neuróticas quando procurava justificar  suas causas.

O que é o “favo de mel”?

O “favo de mel”- é o lugar do sonho na vida do ser humano.

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João Barros - empresário/escritor - professor com formação em filosofia/pedagogia, teologia/psicanálise (...) atualmente, diretor pedagógico na empresa SELO BE IBRATH - com foco na supervisão e qualificação dos produtos pedagógicos e cursos livres em saúde, qualidade de vida e bem-estar. Quanto às crenças e valores, vale a máxima: o caráter do profissional em saúde - isto é - dos psicanalistas/terapeutas - determina sua missão. "Mens sana in corpore sano".

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