Identidade Religiosa 2023 – Instituto Brasileiro de Terapias Holísticas
IDENTIDADE RELIGIOSA

Identidade Religiosa 2023

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Identidade religiosa – é um pilar fundamental na construção do eu e da comunidade. No entanto, essa construção muitas vezes vem carregada de normas de gênero rígidas que podem dificultar o crescimento e o desenvolvimento humano.

IDENTIDADE RELIGIOSA
IDENTIDADE RELIGIOSA

INTRODUÇÃO

Normas de gênero rígidas têm sido um aspecto integrante de muitas tradições religiosas. Estas normas podem ser tão entrelaçadas com a prática e a doutrina religiosa que questioná-las se torna tabu.

O simbólico e o imaginário na identidade religiosa

Julia Kristeva, em suas investigações psicanalíticas, ressalta a importância dos conceitos do simbólico e do imaginário na formação de nossa identidade e, consequentemente, em nossa relação com o sagrado (Kristeva, 1989).

O simbólico representa o conjunto de regras e estruturas linguísticas e sociais que nos permitem funcionar em uma comunidade. O imaginário, por sua vez, envolve as imagens, desejos e fantasias que cada um carrega. Ambos afetam a forma como interpretamos e vivemos nossas tradições religiosas.

Normas de gênero rígidas têm sido um aspecto integrante de muitas tradições religiosas. Estas normas podem ser tão entrelaçadas com a prática e a doutrina religiosa que questioná-las se torna tabu.

Elas influenciam não apenas a percepção individual de identidade, mas também a dinâmica comunitária, podendo levar a discriminação e exclusão.

A construção da identidade religiosa é uma conexão complexa tecida com os fios do simbólico e do imaginário.

O simbólico, que compreende as regras, rituais, e dogmas de uma tradição religiosa, serve como um arcabouço estruturante que possibilita aos indivíduos a sensação de pertencimento a uma comunidade de fé. Ele oferece um idioma espiritual coletivo, um modo de dialogar com o transcendente e com os outros membros da comunidade.

O imaginário, entretanto, é o espaço da subjetividade, onde as imagens de divindades, os desejos de transcendência e as fantasias de salvação ou iluminação preenchem a vida psíquica do indivíduo.

O imaginário religioso é muitas vezes um refúgio contra as incertezas e fragilidades da existência, mas pode também ser uma fonte de conflito quando suas representações entram em choque com as normas simbólicas estabelecidas pela comunidade.

Além disso, é notável como as normas de gênero encontram uma expressão marcante dentro do âmbito religioso. Muitas religiões tradicionais têm claras prescrições sobre os papéis de homens e mulheres, tanto na esfera do sagrado como na vida comunitária.

Essas prescrições são, frequentemente, produtos do simbólico religioso, codificadas em textos sagrados, rituais e leis eclesiásticas.

O problema surge quando essas normas de gênero, rigidamente estruturadas, começam a interferir de maneira negativa na forma como as pessoas vivenciam sua própria identidade.

A dicotomia de gênero enraizada em muitas tradições religiosas pode levar a discriminação, exclusão e, em casos extremos, à violência de gênero.

Aí, o simbólico torna-se opressor, e o imaginário pode tornar-se um campo de batalha interno, onde imagens idealizadas de masculinidade e feminilidade são constantemente questionadas, reinterpretadas ou rejeitadas.

Assim, em qualquer análise séria da identidade religiosa, não se pode ignorar o papel crucial das normas de gênero. Elas são um componente-chave do simbólico religioso que, quando inquestionadas ou inalteradas, têm o potencial de restringir severamente o espaço para a diversidade e a inclusão dentro das comunidades de fé.

Mas também há espaço para a subversão e a transformação.

O imaginário religioso, com sua riqueza de símbolos, metáforas e imagens, oferece recursos para repensar e talvez reformular as normas de gênero. Este é um espaço onde a interpretação pessoal e a experiência espiritual podem abrir caminhos para uma compreensão mais inclusiva e pluralista do sagrado.

No entanto, essas transformações não são fáceis. Elas exigem uma abordagem crítica e reflexiva que esteja disposta a confrontar tradições antigas e questionar interpretações consolidadas.

Requerem uma comunidade engajada em diálogo, introspecção e, por vezes, em árduas negociações entre o simbólico estabelecido e o imaginário emergente.

O campo da psicanálise” data-wpil-keyword-link=”linked”>psicanálise, exemplificado pelo trabalho de Julia Kristeva, oferece ferramentas valiosas para essa tarefa. Ao explorar as profundezas do simbólico e do imaginário, podemos começar a desvendar as complexidades psicológicas e culturais que formam nossa relação com o sagrado.

Essa exploração é essencial não apenas para uma compreensão mais completa de nossa própria identidade religiosa, mas também para a construção de comunidades de fé mais inclusivas e acolhedoras.

Em conclusão, o simbólico e o imaginário são forças dinâmicas na formação da identidade religiosa.

Enquanto o simbólico oferece a estrutura e a continuidade, o imaginário oferece o espaço para a individualidade e a mudança.

É na interação complexa entre esses dois domínios que a identidade religiosa é constantemente formada, desafiada e, em última instância, redefinida.

Ao reconhecer essa dinâmica, podemos trabalhar para criar espaços religiosos mais equitativos e inclusivos, onde o simbólico e o imaginário possam coexistir em uma dança harmoniosa, enriquecendo tanto a vida individual quanto a vida comunitária

A Psicanálise e a desconstrução de normas

A psicanálise oferece um conjunto de ferramentas que podem ajudar na desconstrução dessas normas rígidas. Ao revelar as bases inconscientes de nossas crenças e comportamentos, a psicanálise pode lançar uma nova luz sobre as razões pelas quais essas normas de gênero existem e persistem.

O objetivo não é necessariamente descartar essas normas, mas sim reavaliá-las e, talvez, reformulá-las de maneira mais inclusiva.

Kristeva argumenta que, ao compreender como o simbólico e o imaginário influenciam nossa visão de mundo, podemos começar a flexibilizar as normas culturais e religiosas (Kristeva, 1989).

Ela sugere que é possível uma releitura dessas normas a partir de uma perspectiva psicanalítica, o que pode levar a uma prática religiosa mais inclusiva e menos dogmática.

Para ressignificar e agregar valores à aprendizagem e à prestação de serviços na psicanálise, é fundamental adotar uma postura aberta e questionadora.

Esta postura pode ser especialmente eficaz quando se trata de normas de gênero em contextos religiosos. Através do diálogo e do questionamento, podemos criar espaços onde as pessoas se sintam mais confortáveis para explorar e expressar suas identidades.

A psicanálise, com sua ênfase na exploração do inconsciente, serve como uma lanterna que ilumina os cantos mais escuros das normas sociais e culturais que nos governam.

Por meio dessa iluminação, podemos começar a desmantelar as estruturas rígidas que frequentemente restringem o pleno desenvolvimento do indivíduo.

Estas normas, sejam elas de gênero, religião ou outros campos da existência humana, são moldadas e reforçadas tanto pelo simbólico quanto pelo imaginário.

Ao vasculhar o inconsciente, a psicanálise pode revelar como certas normas culturais são internalizadas, muitas vezes de formas que limitam a autonomia e a expressão individual.

Especialmente no campo das normas de gênero, essa internalização pode ter consequências graves, desde a manutenção de relações de poder desiguais até a exclusão de grupos já marginalizados.

Ao trazer esses processos à consciência, a psicanálise oferece uma oportunidade para reexaminá-los e, se necessário, desafiá-los.

Kristeva, com seu foco nos conceitos de simbólico e imaginário, fornece uma base teórica rica para essa desconstrução. O simbólico oferece as normas estruturais, enquanto o imaginário é o espaço onde as normas podem ser questionadas e reinterpretadas.

Esta interação entre o simbólico e o imaginário não é apenas uma arena de conflito, mas também um espaço de possibilidade e transformação.

Nesse sentido, adotar uma postura aberta e questionadora é crucial.

O profissional da psicanálise, ao adotar tal postura, facilita o processo de questionamento e reinterpretação das normas, especialmente no contexto de comunidades religiosas onde essas normas são frequentemente tratadas como inquestionáveis.

Em outras palavras, a psicanálise pode ser uma ferramenta de emancipação, permitindo aos indivíduos compreender melhor a natureza construída dessas normas e, assim, ter a liberdade de escolher se querem ou não aderir a elas.

Importante também é o papel do diálogo. Quando o espaço para discussão e questionamento é criado, as normas rígidas e dogmáticas podem começar a ser desconstruídas de maneira colaborativa.

Isso é especialmente relevante em ambientes religiosos, onde o dogma muitas vezes tem uma longa história e um forte apoio institucional.

Criar espaços seguros para o diálogo permite que essas questões sejam tratadas de maneira mais aberta, o que pode levar a uma prática religiosa mais inclusiva.

Essa inclusão, por sua vez, é vital para a saúde mental e emocional das comunidades.

Normas que excluem ou discriminam causam danos psicológicos reais. Portanto, uma prática religiosa que é sensível às complexidades do gênero, por exemplo, não é apenas uma questão de justiça social, mas também uma questão de bem-estar mental.

É aqui que a psicanálise pode ser vista não apenas como uma ferramenta de desconstrução, mas também como uma ferramenta de construção.

Ao permitir uma reavaliação das normas existentes, ela também possibilita a construção de novas formas de entender o mundo e de se relacionar com os outros. Em suma, a psicanálise pode ser um meio para atingir um fim: a criação de sociedades mais saudáveis, inclusivas e equitativas.

Ao mesmo tempo, é crucial reconhecer os limites da psicanálise.

Embora possa ser uma ferramenta poderosa para a desconstrução de normas, ela não fornece, por si só, as respostas para como essas novas normas deveriam ser. Isso exige um esforço colaborativo, uma contribuição coletiva que leva em consideração diversas vozes e perspectivas.

Portanto, a psicanálise é um começo, um ponto de partida.

Ela abre portas e janelas que talvez estivessem trancadas, mas caminhar através dessas aberturas e explorar o que está além delas é um esforço que envolve cada indivíduo e a comunidade como um todo. É um processo contínuo de aprendizagem, questionamento e crescimento.

Em conclusão, a psicanálise, especialmente quando enriquecida por abordagens teóricas como as de Kristeva, oferece um poderoso conjunto de ferramentas para a desconstrução de normas sociais e culturais rígidas.

Mas o trabalho não termina aí. Desconstruir é apenas o primeiro passo.

O próximo é construir algo mais inclusivo e significativo, um esforço que exige a participação e a contribuição de todos nós.

A psicanálise e a comunidade

Não é apenas o indivíduo que se beneficia dessa releitura psicanalítica das tradições religiosas. A comunidade como um todo pode encontrar formas mais inclusivas e abertas de vivenciar a religião.

Este é um aspecto crucial na atualização e progressão da psicanálise como uma disciplina que não apenas interpreta, mas também intervém de forma construtiva na sociedade.

Apesar de sua promessa, a aplicação da psicanálise à religião e à identidade de gênero não é isenta de desafios. Há o risco de que a desconstrução psicanalítica seja vista como uma ameaça às tradições religiosas.

Além disso, é crucial que os psicanalistas sejam sensíveis às diversas interpretações e práticas religiosas e não imponham uma única visão de gênero e identidade.

Conclusão

A identidade religiosa e as normas de gênero são temas complexos que tocam a vida de muitas pessoas. A psicanálise, através de teóricos como Julia Kristeva, oferece uma lente através da qual podemos examinar e, talvez, flexibilizar estas normas. Ao fazer isso, não apenas ajudamos indivíduos a viverem de forma mais autêntica, mas também contribuímos para a criação de comunidades mais inclusivas.

João Barros

Floripa, 2023

REFERÊNCIAS BÁSICAS

1- Religião e psicanálise: novos diálogos – Jurandir Freire Costa

Resenha: Este livro se dedica a explorar as múltiplas formas como a psicanálise e a religião se relacionam. Jurandir Freire Costa, médico e psicanalista, oferece uma abordagem profunda sobre a influência das crenças religiosas na formação da identidade e aborda a questão do gênero dentro do contexto religioso. A obra pode ser especialmente útil para quem busca entender como as estruturas psíquicas interagem com as crenças religiosa.

2- Gênero, religião e política – Maria José Rosado-Nunes

Resenha: A autora, especialista em sociologia da religião, discute as implicações políticas das normas de gênero em contextos religiosos. Ela critica o tradicionalismo que muitas vezes acompanha as práticas religiosas e aponta para a necessidade de uma releitura e uma nova compreensão dessas normas dentro das comunidades religiosas. Este livro é indicado para quem quer entender a relação direta entre religião, gênero e esfera pública.

3- Homossexualidade e religião: da condenação à aceitação? Antonio Kovalski

Resenha: Kovalski aborda a complexa relação entre identidade sexual e religião, focando especialmente na homossexualidade. O autor não é psicanalista, mas sua abordagem interdisciplinar pode oferecer perspectivas complementares ao campo da psicanálise. O livro destaca os desafios enfrentados por pessoas LGBTQ+ em contextos religiosos que têm normas de gênero rígidas e busca caminhos para a inclusão e o diálogo.

4- Corpo, gênero e religião – Fernanda Lopes

Resenha: Este livro investiga a maneira como normas de gênero são construídas e reforçadas em contextos religiosos. A autora faz uma análise sobre como o corpo e o gênero são percebidos dentro de diferentes tradições religiosas e como isso pode ser contestado ou reafirmado por seus seguidores. Embora não seja estritamente psicanalítico, o livro pode oferecer insights valiosos para a discussão da psicanálise sobre gênero e religião.

5- Psicanálise e religião: entre Deus e o desejo – Carlos Amaral Dias

Resenha: Amaral Dias, um psicanalista renomado, explora a complexa relação entre a religião e os mecanismos psíquicos do desejo. Ele defende que a psicanálise pode não apenas ajudar a entender como as normas religiosas influenciam o comportamento humano, mas também oferecer caminhos para a reconciliação entre as facetas espirituais e desejantes do ser humano.

João Barros - empresário/escritor - professor com formação em filosofia/pedagogia, teologia/psicanálise (...) atualmente, diretor pedagógico na empresa SELO BE IBRATH - com foco na supervisão e qualificação dos produtos pedagógicos e cursos livres em saúde, qualidade de vida e bem-estar. Quanto às crenças e valores, vale a máxima: o caráter do profissional em saúde - isto é - dos psicanalistas/terapeutas - determina sua missão. "Mens sana in corpore sano".

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