262-FLUIR – Instituto Brasileiro de Terapias Holísticas
AGRESSIVIDADE HUMANA

262-FLUIR

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Fluir – Considerado por muitos, como o maior escritor brasileiro do século XX, João Guimarães Rosa,  médico e poliglota, diplomata e escritor, habilidoso e original,  é quem irá temperar, neste lugar de fala,  a sensibilização à formação psicanalítica.

QUANO SE APRENDE A FLUIR
QUANDO SE APRENDE A FLUIR

“Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”   (Guimarães Rosa)

INTRODUÇÃO (aprender a fluir)

 Em Grande Sertão: Veredas, (1956) Riobaldo narra o trajeto de  sua vida,   velho jagunço, a “matutar”  em sua fazenda, a busca de si mesmo,  por meio do  diálogo/monólogo, a respeito das tragédias da vida humana. Quando se aprende a fluir… o estalido da diferença se faz ouvir.

A busca desesperada pelo sentido da vida, as   situações desafiadoras da  existência,  as sensações de “assujeitar-se” a si mesmo,  são  possibilidades  que Riobaldo encontra para  organizar o seu  próprio mundo. 

A experiência  do sertão, enquanto alegoria à existência humana, se revela     psicanalítica”,  ao sinalizar a oportunidade de se “descontruir/reconstruir”,  em cada encontro – “o processo de vir a ser quem se é”.

O livro  apresenta ao público  coisas nunca vistas antes. O contexto  das histórias se apresenta universal, ao falar do ser humano. 

Das novas palavras até  as sonoridades  características do homem do interior ecoam n’alma da gente. Tudo isso, dá um clima de sedução à saga sertaneja. 

Com seu regionalismo universalizante, Guimarães fala à humanidade, investiga o significado da vida, a relação com a natureza, com Deus, com o diabo e com a morte.  A vida se confunde. A alegoria do sertão é, de fato, a  alegoria à  existência humana. 

“ O senhor me organiza…repete Riobaldo”. 

O candidato  à  psicanálise (aprender a fluir)

(…) para “organizar-se”, precisa se “autodisciplinar-se”,  diante da diversidade de caminhos e propostas. Não basta só o instinto. 

Saber a   diferença entre caminhos longos e curtos, entender o mapa das estrelas e a  força dos ventos, interpretar o tempo favorável e desfavorável, avaliar as descidas e subidas, considerar os momentos de descanso e continuidade. Tudo isso, se apresenta como  condições necessárias à travessia.  

Sensações enquanto respostas neurais  e sentimentos enquanto respostas às emoções,   durante a caminhada,  brotarão do chão  e dos atoleiros imprevisíveis, a quebrar a monotonia e a solicitar fidelidade e continuidade à caminhada. 

Pensar a formação   psicanalítica,  é pensar honestamente, a jornada de estudo, pesquisa e prática,  desde o princípio do sujeito ético – do fazer psicanalítico até a compreensão de que “as pessoas não estão sempre iguais”.

Circunscrever-se à  complexidade, exige  – escolha de  roteiro e dos pontos imprescindíveis, projeção  do itinerário e das direções estratégicas, estudo do mapa e das condições favoráveis em curtos e longos deslocamentos.

Compromissos e propósitos, como velas, içadas ao vento, conduzirão aos bons resultados. 

O segredo é projetar o cenário, torcer pelo céu de brigadeiro, mentalizar a formação enquanto processo/projeto de vida e   permitir-se à aventura do voo. 

E, poeticamente, perceber-se a desfrutar com a imaginação a   “polinização flutuante”,  que da almejada  vivência psicanalítica conduzirá    às primeiras impressões  do sentido transferencial do   “fazer-saber”, do “bem-dizer”.

Para Freud (aprender a fluir)

(…) a psicanálise” data-wpil-keyword-link=”linked”>psicanálise é uma técnica terapêutica  para interpretar  os conteúdos do “sujeito inconsciente” por meio da associação livre e da transferência com a colaboração e parceria de analista/analisando. 

O ser humano se dá conta de suas pulsões, potencialidades,   fragilidades e  por isso mesmo, experimenta a sensação de que lhe falta alguma coisa. Sente-se desacomodado em direção a uma ruptura consigo mesmo.  

O desejo habita  suas necessidades, experimenta sofrimento e dor quando não atende aos  instintos de sua natureza biológica e  sociocultural,   chegando ao ponto de carregar consigo sentimentos de culpa inconsciente/consciente, por não atingir  o fluxo vital, sua plena realização. 

O ser humano é pela sua natureza, social, portanto precisa viver entre  semelhantes e  para que isto se torne realidade, constrói  combinados. A sociedade, com seus costumes e valores,   interpreta o que é bom  para todos e por isso cria uma cultura de “obrigações e deveres”. 

No entanto, esses valores não bastam (aprender a fluir)

(…) para garantir harmonia necessária.

É preciso considerar para além da moral, uma ética, (determinante, motivante e orientadora do comportamento),  que dê sustentação  e significação a estes valores morais, fundamentando e orientando a natureza do bem e do mal. 

Cresce, nestes últimos tempos,  cada vez mais, a preocupação dos institutos e centros de psicanálise  com a formação de futuros profissionais. 

Trata-se de uma preocupação  saudável e necessária, principalmente, nestes tempos difíceis e terríveis. 

A pandemia, de fato,  criou  medos e fantasmas, sensação de incertezas e exaustão,  confusão e estresses.   Isolamento afetivo e social, profissional e cultural. O ser humano experimenta-se ameaçado. 

De volta à formação do psicanalista…

Uma orientação significativa, à semelhança de um leitmotiv, com  segredos de bons resultados, é  reforçar sempre  o mantra -”a análise produz o psicanalista”. 

Portanto (aprender a fluir)

(…) é preciso seguir alguns passos, se a intenção é fazer diferença  no desempenho profissional psicanalítico . 

  • Compreender o “funcionamento psíquico”, condição, mínima necessária, à prática analista (experiência em si de uma análise e/ou autoanálise);
  • Garantir o protagonismo do analisando,  a experiência da subjetividade importa no resgate do “desejo-desviado” (ato analítico/inconsciente);
  • Entender que o saber do analista conduz o analisando  à descoberta de suas impressões inconscientes(sujeito suposto saber);
  • Analisar, analisar e analisar  – a análise,  é o “fazer-saber/bem-dizer”,  coroa  da aventura analítica(1) e recompensa à  parceria colaborativa, analista/analisando (recalque, neurose transferencial e emergência do sujeito do inconsciente).

É necessário construir, garantir e aparentar   a maturidade profissional no exercício da profissão, em termos de conduta, relação e interação, consigo mesmo, com os outros e com seu entorno.

A Sociedade Psicanalítica Ortodoxa do Brasil se orienta a partir do código de ética, aprovado pela Assembleia Geral. Aí se encontram todas as orientações necessárias para o desempenho exemplar da conduta, dirigidos àqueles  filiados aos Conselhos Nacional e Regional.  

Ao encerrar a reflexão (aprender a fluir)

(…) a respeito da formação do profissional em psicanálise, não tem como fazê-la sem antes passar por Lacan, discípulo aficionado a Freud e em seu legado.

Lacan procura desvincular do desejo suas inclinações pulsionais  e se aproxima de outro conceito  de ética  psicanalítica, ao apresentar o desejo desvinculado de ideais e inclinações. 

O compromisso com o desejo do analisante configura a ética da psicanálise. Bem, este assunto é complexo e instigante. O momento não permitirá mais e melhores desdobramentos, mas a dívida/dúvida pela busca do conceito e aprofundamento, deve continuar.

Lacan apresenta a ética do “desejo do analista”, segundo se pode compreender, é dele que depende o manejo do tratamento. Trata-se do famoso  “pulo do gato”. 

Com esse desejo, o lugar sustentado vazio,  se renovará pela nova  linguagem do sujeito/paciente.

Protagoniza-se, ali, neste espaçamento,  “o lugar da fala, para além do bem, para além do mal” (Teixeira). 

Ao se levantar o recalque, o ponto de dessubjetivação, a emergência do sujeito do inconsciente  se fará presente. 

Neste momento, de superação, o sujeito/paciente se torna analista e se liberta das amarras e  das pseudo-justificativas, alienantes – acontece no ato analítico , o “milagre” da “autotransformação”.

Conclusão

Pensar a prática do analista é a melhor forma de pensar a sua formação. Repensar a dimensão ética do desejo, é a melhor forma de repensar o lugar da ética no mundo da psicanálise.

“Mire, veja: o mais importante e bonito, do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais,  ainda não foram terminadas.” (GSV)

João Barros

FLORIPA, 16.08.23

Nota1- “Na aventura analítica, não estamos lidando, portanto, com o inconsciente do analisando e com o inconsciente do analista – o que está em jogo é o inconsciente do Outro (….) o objeto do seu desejo é suposto já estar no Outro” (Teixeira).

Referência básica

  1. “A Paixão Segundo G.H.” de Clarice Lispector
    • Resenha: Através de um relato introspectivo e denso, Clarice nos conduz pelo universo da protagonista G.H. após um evento perturbador em seu cotidiano. A obra mergulha nas profundezas do ser, tocando em questões existenciais e no reconhecimento do outro e de si mesma. É um convite à reflexão sobre a essência humana e sua relação com o mundo.
  2. “Pedagogia da Autonomia” de Paulo Freire
    • Resenha: O educador Paulo Freire aborda, nesta obra, a necessidade de se ensinar a aprender. Através de suas propostas pedagógicas, o livro sugere um ensino pautado no desenvolvimento da autonomia e criticidade do indivíduo, afirmando que educar é um constante ato de reinvenção e aprendizado mútuo entre educador e educando.
  3. “O Sertão Universal: Guimarães Rosa e a Psicanálise” de Nádia de Lourdes Nogueira Lima
    • Resenha: A autora traça um paralelo entre a obra de Guimarães Rosa e os conceitos psicanalíticos, especialmente em “Grande Sertão: Veredas”. O livro investiga as complexidades do ser humano retratadas por Rosa à luz das teorias psicanalíticas, proporcionando uma leitura profunda da relação entre literatura e psicanálise.
  4. “Poética do Devir” de Clarisse Fukelman
    • Resenha: A obra propõe uma reflexão sobre a transformação e a capacidade do ser humano de se reinventar. Utilizando-se de uma abordagem filosófica e literária, Fukelman dialoga com diversos autores e com a arte, trazendo para o debate os desafios da existência e as possibilidades de “vir a ser”.
  5. “Raízes do Brasil” de Sérgio Buarque de Holanda
    • Resenha: Sérgio Buarque explora, nesta obra clássica, as origens e características da formação social brasileira. Abordando temas como individualismo, família e ordem social, o autor reflete sobre o “homem cordial”, figura que sintetiza a alma brasileira. A obra não apenas ajuda a entender a sociedade e a cultura do Brasil, mas também as complexidades humanas que formam a nação.

João Barros - empresário/escritor - professor com formação em filosofia/pedagogia, teologia/psicanálise (...) atualmente, diretor pedagógico na empresa SELO BE IBRATH - com foco na supervisão e qualificação dos produtos pedagógicos e cursos livres em saúde, qualidade de vida e bem-estar. Quanto às crenças e valores, vale a máxima: o caráter do profissional em saúde - isto é - dos psicanalistas/terapeutas - determina sua missão. "Mens sana in corpore sano".

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